Entrevistamos: Ella De Vuono

Residente da Carlos Capslock e com mais de 12 anos de estrada, Ella de Vuono é uma artista completa e que bateu um super papo com a gente.

Ella De Vuono (Credito Gabriel Quintão)
Ella De Vuono | Foto: Gabriel Quintão

Ela é conhecida por suas mixagens perfeitas e por sua bagagem musical de mais de 12 anos. Residente de uma das festas mais legais da atualidade, ela é uma menina do interior, que quando sobe ao palco, se transforma e leva ao público todo o seu carisma e set eclético. Leia nossa entrevista com Ella De Vuono:

Beat for Beat – Ella, muito obrigado por nos receber! Me diz, como surgiu a ideia de ser DJ? Você se lembra do seu primeiro contato com a música? E da sua primeira apresentação?

Ella De Vuono – Imagina, eu que agradeço o interesse pelo meu trabalho! A ideia de ser DJ, pelo menos a primeira vez que me dei conta que isso fosse possível, foi quando eu vi a Mara Bruiser discotecando em 2004. Até então, eu só via homens nos palcos e, ao ver  a Mara tocando o terror ali em cima, me identifiquei na hora! Claro que, para sair do plano das ideias e botar aquilo em prática, foi um longo e árduo caminho.

Meu primeiro contato com a música… Nossa! Isso é bem profundo, hein? Sempre estive imersa em música, tanto através da minha mãe, que sempre foi uma “mãe rolezeira” (rss) e ouvia desde rock à house music no comecinho dos anos 90, quanto através do meu irmão mais velho, que sempre foi músico de coração e desde criança, tocou diversos instrumentos… tudo isso pra dizer que o contato começou muito cedo, dentro de casa mesmo.

Ah! Minha primeira apresentação! É claro que me lembro! Foi em 2006, e num lugar que se chamava Cultivate Peace, em Campinas. A festa foi em uma chácara e o sound system era um monte de caixas de micro systems empilhadas, a decoração era feita de lençóis pichados pendurados. Meus amigos foram em peso me dar aquela força e foi sucesso!!

B4B – Quem são suas principais influências na música? Tanto na eletrônica quanto fora dela. Com quem já teve a oportunidade de tocar e quem é aquele sonho de consumo?

Ella – Vou resumir, porque são várias e ficaria muito tempo aqui discorrendo sobre elas! Minhas influências na música eletrônica: Laurent Garnier e DJ Marky; fora dela tenho a Madonna, Marvin Gaye, Rita Lee e Nina Simone. Também tenho as influências  fora da música: Gabrielle Bonheur Chanel e Glória Maria.

Já tive a oportunidade de tocar com os principais nomes do Brasil hoje: Alok e ANNA. Também toquei ao lado da Ellen Allien, Mau Mau, Renato Cohen, Gui Boratto e em recentemente estive ao lado da lenda alemã, DJ Hell. Sonho de consumo? Com certeza, DJ Marky.

Ella Caos
Ella De Vuono na Caos

B4B – Você é de Campinas, uma cidade que a cada dia que passa, respira mais e mais música eletrônica, principalmente após a inauguração do Caos, há cerca de 1 ano atrás e do Laroc e Ame Club que estão na mesma região. Você vê o interior de São Paulo como uma extensão do cenário eletrônico da capital ou acha que ele possui características próprias?

Ella – Sim! O Caos, Ame e Laroc foram fundamentais para que a cena local ganhasse ainda mais força! Acredito que a cena aqui em Campinas possui características próprias sim. Por exemplo, apesar de estarmos muito perto de São Paulo, existe uma diferença enorme no público e até no próprio ambiente das festas. Vou me explicar melhor…

Para mim, uma das principais diferenças é que, aqui em Campinas, por mais festeira que a galera seja, as festas raramente se estendem depois das 10h da manhã. Neste horário, temos, no máximo, 200 pessoas na pista de dança, enquanto em São Paulo, temos 800! Não que isso seja necessariamente bom ou ruim, é apenas um exemplo de que o interior não é uma extensão da capital e, na verdade, eu acho isso ótimo: cada lugar com suas peculiaridades. E assim seguimos firmes!

B4B – Para alguns, é um tanto quanto clichê falar sobre o cenário ser ainda meio machista e dominado por homens, porém é sempre necessário. Como tem sido pra você, superar possíveis barreiras de preconceitos e conseguir tocar em diversas festas e integrar lineups que sempre foram predominantemente masculinos?

Ella – Sim, com certeza é um tema necessário e precisamos falar sobre o machismo, sempre. Para mim, tudo que conquistei até agora, nada tem a ver com meu gênero e sim com a minha competência, com o meu desenvolvimento mesmo. Este é um meio predominantemente masculino, assim como a aviação, por exemplo. Nós, mulheres, fomos “podadas” uma vida inteira, então ainda estamos começando a conquistar nosso lugar.

Mas, para mim, nunca foi uma questão de ser homem, mulher, trans ou qualquer variação  de gênero possível, que são múltiplas, aliás! Sempre acreditei que o único critério a ser levado em conta é o conhecimento, a competência. Não sou pró lineups 100% femininos, não por não achar que possam ter mulheres capazes, mas porque acredito que isso não é critério, ou seja, não é relevante para a arte. Para mim, não importa o gênero da pessoa que está no palco, me importa a arte dela.

Particularmente, sou muito suspeita para falar de homens, pois ao longo de minha jornada, foram eles que me estenderam e me estendem a mão até hoje. Com exceção de uma única mulher, quase nunca fui ajudada por mulheres dentro da cena, então eu realmente acredito que atitudes valem muito mais do que palavras e digo mais, acredito – e espero! – que a sororidade seja para todas!

B4B – Você hoje é residente de uma das festas que levam o conceito underground e clubber super a sério, a Carlos Capslock. Como surgiu o convite para integrar o time de residentes? Como é ser um dos rostos de uma festa que quebra todos os rótulos possíveis e imagináveis?

Ella – A história sobre o convite foi assim: o Laércio (L_cio) e o Tessuto, os nomes por trás da Caps, acompanhavam meu trabalho pelas redes sociais e me viam direto na Capslock – sempre fui frequentadora assídua desta festa desde o começo. Um dia, em uma festa aqui na região de Campinas, o Laércio disse que curtia muito o meu trabalho e me pediu para enviar meu material, isso foi em um sábado. Na segunda-feira, eu enviei meu material pra ele e na quarta, recebi o convite para tocar na Caps!

Fiz um set épico de 4 horas e meia e 1 mês depois daquela apresentação histórica pra mim, como consequência, veio o convite para ser residente. Ser um dos rostos da Carlos Capslock é sinônimo de orgulho pra mim, é a prova de que estou no caminho que escolhi para minha vida. Essa label tem tudo a ver comigo, não só pela autenticidade, mas pela valorização do artista pela sua competência profissional.

B4B – No carnaval, você fará parte do lineup do Unidos do BPM, bloco pioneiro de música eletrônica em São Paulo. Em algum momento, você imaginava que chegaria a tocar num dos maiores carnavais do país, em cima de um trio elétrico tocando apenas música eletrônica, desfilando pelas ruas do centro velho de São Paulo? Como estão as expectativas?

Ella – Imaginava, sim! Sempre me imaginei tocando em um trio elétrico em São Paulo, sempre tive um evento desses como meta em minha carreira, principalmente pela influência que a Love Parade de Berlim tem na história da música eletrônica. Nunca deixei de acreditar que a música eletrônica teria seu lugar ao sol no carnaval do Brasil.

A expectativa está altíssima, estou trabalhando com minha equipe para entregar uma experiência inesquecível em meu set, não só em relação à técnica e ao repertório, mas também visualmente. Gostaria de contar tudo, mas daí vou estragar a surpresa (rss).

Ella Capslock
Ella De Vuono na Carlos Capslock

B4B – Pra finalizar, quem é Ella De Vuono hoje e o que ela projeta para a Ella daqui alguns anos? Que conselho você pode dar, principalmente para as meninas que estão começando ou querendo começar na carreira eletrônica?

Ella – A Ella é quase uma entidade que recebo quando me conecto com a pista: um pouco drag, um pouco mulher, um pouco macho. Por isso, senti a necessidade de um nome artístico. Fora dos palcos, eu sou uma pesquisadora assídua e digger (escavadora) de discos. Além disso, sou estudiosa na arte da discotecagem, não só levando a sério a leitura de pista e me desprendendo de um gênero específico para tocar, mas também valorizando a técnica da discotecagem em sua essência.

Estou projetando focar mais na área de produção musical, na qual já atuo, mas de forma menos assídua. Agora, com meu home studio pronto, estou conseguindo produzir mais músicas e mergulhar nesse mundo. Para daqui alguns anos, vou ficar devendo! Acho importante guardarmos alguns planos para nós mesmos antes de divulgar. Mas aproveito a oportunidade e deixo o convite para vocês, para me acompanharem nessa jornada que está muito “bapho”. 😉

Meu conselho para quem está começando? Estude, pesquise, trabalhe, não seja medíocre – vá além -, não fale mal do trabalho alheio e não puxe o saco de ninguém, conquiste seu lugar através do seu conhecimento e não por contatos. Não existe atalho para o sucesso. Só o que é de verdade, dura!

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Editores do Beat for Beat. Apaixonados pela música, pela pista e uma boa taça de gin.