Entrevistamos: Tessuto

Às vésperas de comemorar 8 anos de sua festa Carlos Capslock, conversamos com o Tessuto, que falou um pouco sobre a trajetória da festa até aqui.

Tessuto
Tessuto. Foto por Felipe Gabriel

O cenário de festas undergrounds do Brasil é cada vez mais rico e cheio de opções para todos os tipos e gostos, mas tudo isso só é possível por conta de coletivos, festas e pessoas que, num passado, lutaram para conseguir seu espaço e hoje, abrem portas para tantos outros projetos. Uma dessas festas está prestes a fazer anivesário e por mais que não pareça, vai completar 8 anos de existência: Carlos Capslock.

Criada e comandada por Tessuto, a festa é mais que somente música, é um local de resistência e liberdade de expressão, pra você ser quiser, sem temer preconceitos ou represálias. Um local seguro entre o caos urbano. Com fama internacional, em sua próxima edição, A Carlos Capslock receberá grandes nomes do techno: ANNA, Gui Boratto, L_cio, Sebastian Voigt, Caio Taborda e o próprio Tessuto, que conversou com a gente, falando um pouco sobre a trajetório da festa. Confira:

Beat for Beat – Olá Tessuto! Muito obrigado por falar com a gente. Muito em breve você vai comemorar os 8 anos da Carlos Capslock, que podemos dizer, é uma das festas pioneiras quando falamos no cenário underground alternativo de São Paulo. Como é ser referencia para tantos outros projetos e estar a tanto tempo na ativa?

Tessuto
– Olá Viktor! Muito obrigado pelo convite. Pois é, estamos há cinco dias da festa e eu fico muito contente, pois desde que eu comecei a Capslock, o processo de criar um personagem me fez muito bem. Com um personagem, você tem liberdade artistica para ser o que quiser e isso te possibilita expressar toda a sua arte, crítica e humor, o que culmina numa constante reflexão. Eu queria compartilhar aquilo com outras pessoas e a melhor maneira que eu encontrei foi a expressão artística, porém tudo isso é algo que eu levei um tempo para me dar conta que era possível. Aconteceu de forma orgânica. Nada foi planejado. Eu acho que isso é uma coisa que anda esquecida no subconsciente de todos: em como um artista pode ter poder de influenciar outras pessoas e como isso pode ser benéfico para a sociedade se feito de maneira sensata mesmo que dentro da sua loucura.

Sobre estar na ativa, é sempre um desafio. Um dia após o outro, o que é muito gratificante também,  o que de certa forma, equilibra as coisas. Quando eu criei o personagem, eu nunca imaginei que ele seria uma festa e acho que isso foi essencial para o sucesso da idéia.

Tessuto
Tessuto tocando na Capslock de 7 anos e meio. Foto por Felipe Gabriel

B4B – Uma das principais caracteristicas da Capslock é toda a liberdade que o público possui. Ser quem você é, da forma que quiser, desde que não invada o espaço do outro. Foi dificil levar todo esse conceito pra uma cena que, mesmo com uma mente mais aberta, ainda possui fortes traços de conservadorismo? Quais foram as principais dificuldades pra derrubar a barreira do preconceito?

Tessuto – Foi um processo lento e orgânico, o que nos deu bastante tempo para deixar nossa mensagem enraizada no subconsciente das pessoas. O que a gente sente é que as pessoas que vão a festa e sabem o que vão encontrar, tanto que até hoje, so temos o registro de uma briga dentro do evento. É importante tentar criar ambientes onde as pessoas que são marginalizadas pela sociedade possam se sentir seguras. O respeito e o resgate da cultura queer foi uma das primeiras coisas que eu pensei quando tive  a ideia de transfornar Carlos numa festa, tanto que fui estudar o movimento, pra descobrir a verdadeira raiz do que eu estava fazendo e isso ajudou as nossas festas a revisitarem a história, coisa que hoje, mais do que nunca, se faz necessário. Somos cada vez mais bombardeados com informação gráfica. As coisas passam e as pessoas esquecem. A maior dificuldade é sempe tentar passar informação de forma sútil e subversiva.

Tessuto
Ronalda Bi e Stephanie

B4B – Pude presenciar gente confundindo o Carlos Capslock com o Tessuto, imaginando que são, literalmente, a mesma pessoa. Qual a importância de um personagem ganhar tanta força a ponto de ser referencia para outras pessoas? Onde o Tessuto deixa de ser o Capslock e onde eles mais se encontram?

Tessuto – Isso acontece mesmo. Diversas vezes as pessoas me chamam de Carlos ou perguntam onde ele está e acredite, eu também queria saber Heheheh. A importancia para mim é o poder de alcance das mensagens que a gente passa. Já faz muito tempo que eu considero o Carlos mais uma intervenção artistica do que um personagem, ele já saiu do expectro pessoal, mas claro que ele ainda vive nas minhas ideias ou nas imagens dos flyers. Acho que nos encontramos quando eu começo a falar sozinho. Materializar as reflexões me move em diversas direções e ajuda a encontrar soluções, idéias, etc.

Carlos Capslock Tessuto
Any Mello tocando na edição de 7 anos e meio da Capslock. Foto por Felipe Gabriel

B4B – De festas independentes a um dos maiores blocos de música eletrônica do carnaval paulistano, com o SP Beats. Sair dos “becos escuros” e ocupar as ruas de São Paulo, a luz do dia, durante a maior festa popular do país certamente foi um passo gigante na caminhada da Capslock. Quais são os próximos passos?

Tessuto – Foi uma experiência muito intensa e gratificante. Nós percebemos que o Carnaval de São Paulo, apesar de até pouco tempo atrás não ter muita expressividade no cenário nacional, estava se transformando em algo grande. Foi ótimo ver quanta gente aqui na cidade curte música eletrônica. A gente segue a procura de um local fixo, fazendo os showcases e lançando pelo selo da festa: MEMNTGN. Nosso próximo é da Any Mello e na sequência Max Underson.

B4B – Pra finalizar: a festa de aniversário está chegando e a ansiedade toma conta de todos, seja pela festa em si ou pelos sets. O que podemos esperar desses 8 anos? Alguma surpresa que pode nos adiantar? Como você, pessoalmente, está lidando com a ansiedade?

Tessuto – Estamos tentando manter a ansiedade lá em baixo. A estrutura de produção da festa já está bem avançada, o que ajuda a segurar os níveis de ansiedade. Eu estou preparando um set com bastante promos e coisas novas, além de alguns clássicos, mas é sempre muito difícil saber o que esperar de um set ou live, mas, pela animação dos artistas que se apresentarão comigo, vamos explodir a boca do botijão!

Ah, aconselhamos que, quem não conseguir comprar antecipado, deve chegar mais cedo para garantir seus ingressos. Boa festa a todos e até sexta!!

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Editores do Beat for Beat. Apaixonados pela música, pela pista e uma boa taça de gin.