Aline Rocha fala sobre carreira, curadoria musical, a evolução da house music e os desafios de construir um set para o Rock in Rio.
Aline Rocha segue levando a house music brasileira para alguns dos principais palcos do mundo. Radicada em Londres, a DJ acaba de retornar do Tomorrowland Bélgica, onde se apresentou no Freedom Stage, e já volta as atenções para outro grande compromisso: o Rock in Rio. Ultimos ingressos disponíveis aqui.
Em conversa com o Beat for Beat, Aline falou sobre a experiência de tocar em um dos maiores festivais do planeta, a importância da curadoria musical em uma era de lançamentos constantes, a liberdade de transitar por diferentes sonoridades e como pretende construir um set capaz de conquistar tanto os fãs da música eletrônica quanto quem terá seu primeiro contato com a house music no New Dance Order. Confira:
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Beat for Beat – Você acabou de voltar do Tomorrowland. Como foi tocar no Freedom Stage?
Aline Rocha – Foi incrível. Muita gente acha que foi a minha estreia no Tomorrowland, mas, na verdade, eu já tinha tocado no festival em 2024 pela Glitterbox. Na época, foi em um palco menor, ao ar livre, com uma proposta completamente diferente.
Desta vez, tocar no Freedom Stage foi outra experiência. É um palco fechado, com energia de clube e onde normalmente se apresentam artistas com sonoridades mais voltadas ao techno. Foi um desafio, mas pensei: se eles me convidaram, é porque conhecem o meu trabalho. Então, não fazia sentido tentar ser outra artista.
Transformei o Freedom Stage em um grande clube, porque essa é a minha essência. Eu cresci dentro da cultura clubber e quis levar exatamente essa energia para o palco. Foi emocionante. Chorei no fim do set e, sem dúvida, foi um daqueles momentos que vou guardar para sempre.
Beat for Beat – Hoje você mora em Londres e toca pelo mundo todo. Em algum momento você sentiu que precisava mudar seu som para agradar o público de fora ou foi justamente sendo mais brasileira que encontrou seu espaço?
Aline Rocha – Eu sou cria da house music. Meu som sempre foi muito internacional e minhas principais referências vieram de fora do Brasil. Ao mesmo tempo, cresci cercada por música porque meu pai era radialista, então sempre tive contato com diferentes estilos desde criança.
Hoje vivo em Londres e isso faz com que eu esteja ainda mais conectada com a cena europeia. Mas gosto de levar pequenas referências brasileiras para os meus sets, principalmente através da parte rítmica. É um tempero, uma pitada de Brasil dentro de uma sonoridade que é, majoritariamente, house, disco e groove.
Acho que esse equilíbrio acontece de forma muito natural. Meu som conversa com o público internacional, mas sem deixar de carregar um pouco da minha identidade brasileira.
Beat for Beat – Com tanta música sendo lançada todos os dias, o que faz uma faixa continuar no seu pendrive depois de meses? O que faz você pensar: “essa não sai do meu set”?
Aline Rocha – A resposta é simples: o público. Não existe uma fórmula para saber se uma música vai funcionar. O meu termômetro sempre foi a reação da pista.
Existem faixas atemporais, como ‘Lola’s Theme’, do The Shapeshifters, que emocionam as pessoas toda vez que entram no set. Mas também gosto muito de apresentar músicas novas. Como curadora e seletora musical, observo a resposta do público e, quando percebo que uma faixa realmente cria uma conexão, ela continua fazendo parte dos meus sets.
Beat for Beat – Você acredita que hoje existe uma cobrança muito grande para que todo DJ também seja produtor?
Aline Rocha – Comecei minha carreira há 20 anos como curadora musical. Naquela época, os DJs eram reconhecidos muito mais pela seleção de músicas do que pela produção. Foi só depois que artistas como David Guetta começaram a popularizar esse perfil de DJ-produtor.
Hoje existe uma cobrança muito grande por lançamentos constantes, mas nunca me deixei levar por essa pressão. Produzo no meu tempo, sem acreditar que quantidade define a qualidade de um artista.
Para mim, continuar apresentando músicas de outros produtores também faz parte do trabalho. Gosto de descobrir sons, criar trilhas para diferentes momentos e construir histórias através da música. Acho importante respeitar o tempo de cada artista. Quem produz mais não é necessariamente melhor do que quem produz menos.
Beat for Beat – A house music mudou bastante nos últimos anos. O que mais tem te animado na cena hoje e o que você acha que já ficou para trás?
Aline Rocha – Sinceramente, acho que não falta nada na cena. Pelo contrário: nunca tivemos tanta diversidade.
Eu não gosto de me prender a rótulos. Embora seja uma DJ de house music, me sinto livre para tocar Afro House, Tech House ou qualquer outra sonoridade que faça sentido naquele momento. Acho que essa mistura enriquece a pista e permite construir sets muito mais interessantes.
Também tenho observado, principalmente na Europa, gêneros que antes eram extremamente underground ganhando espaço. O UK Garage é um ótimo exemplo. Ver esses movimentos chegando a novos públicos torna a cena ainda mais rica e diversa.
Beat for Beat – No Rock in Rio tem gente que ama música eletrônica e gente que talvez esteja ouvindo house ao vivo pela primeira vez. Na hora de montar o set, você prefere conquistar esse público aos poucos ou já chegar mostrando a que veio?
Aline Rocha – É sempre uma caixinha de surpresas. Eu não gosto de pensar demais com muita antecedência, prefiro sentir o momento conforme o evento se aproxima.
Mas, em um festival como o Rock in Rio, é claro que você precisa considerar o contexto. Não adianta chegar com um set extremamente underground e esperar que todo mundo se conecte de imediato. Alguns sets são transmitidos pela TV, então eu também penso em quem está assistindo de casa. Gosto de analisar todo o cenário.
Se o meu set for transmitido, quero que as pessoas não mudem de canal. E, na pista, acontece a mesma coisa. O público circula o tempo todo, então o meu objetivo é fazer com que ele queira ficar ali, vivendo aquela experiência.
Para mim, um festival desse porte também é uma oportunidade de conquistar novos fãs. Por isso, procuro construir um set mais acessível, sem abrir mão da minha identidade. Quando penso em grandes festivais, não ignoro o fato de que é preciso criar uma conexão imediata com quem talvez esteja ouvindo o meu trabalho pela primeira vez.
