Do sucesso de ‘Funk Drunk’ ao retorno após um burnout, Carola abre o jogo sobre carreira, música e o Rock in Rio nessa entrevista exclusiva.
Enquanto o Rock in Rio se aproxima, alguns artistas chegam ao festival carregando não apenas um repertório pensado para a pista, mas também uma visão muito clara sobre o papel da música eletrônica na construção de comunidades. É o caso de Carola.
A DJ desembarca no New Dance Order para um B2B inédito ao lado de GIU. A apresentação promete refletir uma conexão construída a partir de valores compartilhados, representatividade e da vontade de transformar a pista em um espaço de troca. Últimos ingressos disponíveis aqui.
Em conversa com o Beat for Beat, Carola falou sobre a preparação para esse momento, a construção do set, a importância de ocupar grandes palcos com propósito e como enxerga a música eletrônica como uma ferramenta de conexão, acolhimento e transformação social.
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Beat for Beat – ‘Funk Drunk’ colocou você ao lado de nomes como Fatboy Slim e Felix Da Housecat, dois artistas que ajudaram a moldar a história da música eletrônica. O que essa colaboração representa para você neste momento da carreira?
Carola – É uma pergunta muito complexa porque essa colaboração chegou justamente em um dos momentos mais difíceis da minha carreira, quando passei pelo primeiro grande período de burnout. Eu já não conseguia entender se estava no caminho certo e sempre tive dificuldade de definir uma identidade sonora, porque nunca fui uma artista de uma coisa só.
‘Funk Drunk’ nasceu de um mashup que o Fatboy Slim criou entre uma música do Felix Da Housecat e uma faixa minha. E isso tem um peso enorme porque os dois são artistas que moldaram a minha formação. O Fatboy Slim foi uma das primeiras pessoas que eu vi tocando música eletrônica quando era criança. Anos depois, estou lançando uma música ao lado dele e do Felix.
Essa colaboração representa uma validação muito pessoal. É como se ela tivesse chegado para me lembrar que eu estou no caminho certo. Mesmo ainda me sentindo, muitas vezes, incompreendida dentro do mercado brasileiro, trabalhar ao lado de duas lendas da música eletrônica me mostrou que vale a pena continuar acreditando na minha arte.
Beat for Beat – Você comentou que passou por um período de burnout e de dúvidas sobre a própria identidade artística. Como conseguiu reencontrar a vontade de criar?
Carola – Foram quase dois anos muito difíceis. Eu sempre fui uma pessoa extremamente criativa, que dorme e acorda pensando em ideias, mas, durante esse período, simplesmente não conseguia produzir. Era como se eu tivesse perdido essa conexão comigo mesma.
Mesmo assim, tentei direcionar essa energia para outras coisas que faziam sentido para mim. Continuei criando, mas de outras formas, olhando para projetos que pudessem gerar impacto além da música. Quando ‘Funk Drunk’ aconteceu, senti que ela chegou exatamente no momento em que eu precisava. Ela reacendeu essa vontade de continuar criando e me deu força para seguir em frente, mesmo em meio às dificuldades que eu ainda estava enfrentando.
Beat for Beat – Mesmo vivendo esse momento difícil, você criou o Sound Exhibit, um projeto social em Porto Alegre. De onde surgiu essa vontade de devolver para a sua cidade tudo o que a música eletrônica proporcionou para você?
Carola – Eu sou de Porto Alegre e sempre senti vontade de levar para a minha cidade um pouco do que acontece nos grandes centros da música eletrônica, como São Paulo e Rio de Janeiro. Foi assim que nasceu o Sound Exhibit.
A primeira edição aconteceu perto do meu aniversário e eu quis transformar aquela data em um presente para a cidade onde cresci. Reunimos alguns dos principais profissionais da cena nacional, como Omoloko, Bruno Be e Fran Bortolossi, para dois dias de palestras gratuitas, falando sobre mercado, produção e carreira. Depois, realizamos uma festa aberta ao público dentro da Casa de Cultura Mario Quintana, com famílias inteiras participando, inclusive crianças.
É esse tipo de transformação que eu quero continuar promovendo. A música eletrônica também pode ser uma ferramenta de acesso, de formação e de conexão entre as pessoas.
Beat for Beat – O Fatboy Slim sempre foi uma grande referência para você. Depois de trabalhar ao lado dele, qual foi o principal aprendizado que ficou dessa experiência?
Carola – O que mais me marcou foi perceber como artistas desse tamanho tratam as pessoas. O Fatboy Slim é alguém que respeita todo mundo, que continua acessível e humano mesmo depois de décadas de carreira.
Esse é o tipo de artista que eu quero ser. Quero continuar fazendo coisas incríveis, mas sem perder a conexão com as pessoas. Quero que a minha carreira também possa inspirar outros artistas e, quem sabe, abrir caminhos para alguém da mesma forma que tantas pessoas abriram caminhos para mim.
Essa colaboração chegou justamente quando eu estava desacreditando de mim mesma. Trabalhar com artistas que sempre admirei foi uma confirmação de que as coisas estão acontecendo no tempo certo e de que vale a pena continuar seguindo esse caminho.
Beat for Beat – Você e a GIU vão dividir o palco no Rock in Rio em um B2B inédito. Como está sendo preparar esse encontro e o que vocês esperam deixar para quem estiver na pista?
Carola – A GIU é uma das minhas melhores amigas dentro da música eletrônica. E isso torna esse B2B ainda mais especial, porque não é sempre que a gente tem a oportunidade de trabalhar ao lado de pessoas com quem existe uma conexão tão verdadeira.
Queremos construir uma experiência que também desperte reflexão. A música eletrônica é um espaço de entretenimento, mas ela também reflete a sociedade em que vivemos. Questões como representatividade, igualdade e a presença das mulheres na cena fazem parte da nossa realidade e queremos que isso também esteja presente no palco.
Se conseguirmos transformar a pista em um lugar de celebração, mas também de consciência e inspiração, acredito que já teremos cumprido o nosso papel no Rock in Rio.
