Fernando Eirin transforma inquietações em ‘Real Freedom’

Fernando Eirin, DJ e produtor uruguaio lança faixa que une house melódica e reflexão sobre a crise habitacional nas grandes cidades.

Fernando Eirin

Fernando Eirin começou sua trajetória como DJ no Uruguai, em 2006, mas foi somente anos depois, já vivendo em Madrid, que encontrou na composição uma nova maneira de se relacionar com a música. Em 2022, aos 37 anos, começou a produzir de forma autodidata, utilizando apenas um computador, um mouse e fones de ouvido.

O que surgiu como uma descoberta pessoal logo se transformou no centro de sua vida artística. Depois das primeiras experiências em estúdio, Eirin aprofundou seus conhecimentos em produção musical e passou a desenvolver um trabalho guiado por vivências pessoais, inquietações sociais e pela busca por uma linguagem que pudesse traduzir tudo isso sem depender das palavras.

Essa proposta ganha um novo capítulo com ‘Real Freedom‘, lançada dia 06 de agosto pela sua gravadora, Cala Music. A faixa é a terceira de uma sequência de quatro trabalhos definidos pelo artista como “interpretações artísticas por meio dos sons”, iniciada com ‘Vindication‘ e ‘Rosedal‘.

Com uma linha de baixo profunda, melodias, texturas, sintetizadores e pads etéreos, ‘Real Freedom‘ constrói uma atmosfera melancólica e instável que aborda, indiretamente, a crise habitacional nas grandes cidades europeias e a insegurança provocada pela especulação imobiliária. O conceito também se estende ao trabalho audiovisual publicado pelo artista, reforçando a proposta de criar músicas para dançar, mas também para refletir sobre questões que ultrapassam a pista. Ouça aqui.

Sua identidade sonora, porém, não nasceu de uma única direção. Ela foi formada por artistas, movimentos e experiências que, em diferentes momentos, alteraram sua maneira de ouvir, compor e compreender a função da música. Ele nos contou mais sobre suas influências na construção de seu som e como elas aparecem em seus trabalhos recentes.

Fernando Eirin - Real Freedom

Um artista, selo ou movimento eletrônico

É difícil citar apenas um, porque sinto que seria injusto com outras referências que também me marcaram. Mas uma figura fundamental para mim foi Richie Hawtin.

A primeira vez que o vi foi na South American Music Conference de 2005, em Buenos Aires, e aquilo me impactou tanto musical quanto conceitualmente. É o único artista que, durante sua performance, parece travar uma batalha entre ele e a tecnologia. No mesmo nível eu colocaria Sven Väth, cuja versatilidade e estilo sempre foram uma grande referência para mim.

Além deles, James Holden e o selo Border Community me influenciaram muito também. As sessões do Holden, que já têm mais de 15 anos, continuam atuais para mim e sigo ouvindo até hoje.

Um artista de outro universo musical

Gosto muito de reggae e cresci ouvindo esse estilo, por isso Bob Marley sempre terá um lugar especial no meu coração. Mas, se tiver que escolher alguém que influenciou diretamente o meu trabalho, diria Hermanos Gutiérrez.

Quando os ouvi pela primeira vez, a melancolia daquelas guitarras me tocou profundamente. O álbum era Hoy Como Ayer e despertou em mim uma sensação única. Acho que ele fez florescer emoções que, mais tarde, contribuíram para que eu decidisse dar uma oportunidade à produção musical.

Uma experiência pessoal

A verdade é que vivi experiências muito intensas nos últimos anos. Acredito que me tornar compositor é o resultado de tudo o que vivi ao longo da vida. Encontrei uma forma de transformar minhas emoções mais íntimas, pensamentos, momentos e fases marcantes em sons. A composição musical tem algo de muito complexo, mas é igualmente transformadora e terapêutica.

Um lugar ou uma cena musical

A Argentina sempre foi um farol para mim, tanto musical quanto culturalmente. Tive a oportunidade de viver dois anos em Buenos Aires, e foi uma experiência extremamente enriquecedora que influenciou minha visão sobre a música.

Uma ideia ou princípio artístico

Quero me manter sempre fiel a mim mesmo e continuar evoluindo em busca de novas experiências sonoras. Também procuro fazer com que o ouvinte tenha uma experiência completa, envolvendo corpo, mente e emoção. E, idealmente, quero que a comunidade em torno do projeto continue crescendo para que possamos gerar um impacto social real. Como já disse antes, este projeto nasceu com o objetivo de conscientizar as pessoas por meio da música.