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Editorial

PITTA, o psytrance e a luta por liberdade em amar e se expressar

Pansexual, DJ e inserido na cena do psytrance, PITTA é um exemplo de que podemos ocupar todos os lugares, seja ele qual for. Acompanhe nossa entrevista.

PITTA

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Um artista multifacetado. Jorge Pitta, ou só PITTA, começou frequentando a cena noturna LGBTQIA+, até que gradativamente, foi ocupando seu espaço de direito na cena do psytrance. Pansexual, ele representa o + da sigla e hoje, conversa com a gente num papo bem cabeça.


Confira nossa entrevista com PITTA, convidado da nossa #PrideWeek 2020

Beat for Beat – Pitta, muito obrigado por topar conversar com a gente nessa semana tão especial. Pra começar, nos diga: como é ser uma pessoa LGTQIA+ dentro da cena trance? Você acha que ainda há resistência para que o público aceite alguém de nossa comunidade?

PITTA – Eu quem agradeço a oportunidade falar com vocês. É muito importante ter esse espaço pra gente. Muito preciso, na verdade.

Bom, a cena trance tem algumas subdivisões, ramificações de público, mas vou falar de uma maneira mais geral. Existe dentro da cena trance, um espaço pra pessoas LGBTQIA+. Existem projetos inclusivos muito importantes pra nós da comunidade, como o LGBTrance e o projeto Trance de Rua, mas este espaço é algo que precisa de mais visibilidade, mais atenção. Infelizmente, o ramo artístico rico que a cena psytrance possui, ainda é composto predominantemente por homens cisgêneros heterossexuais brancos. Consequentemente isso pesa e tendencia espaços disponibilizados aos LGBTQIA+ e mulheres, tanto aos artistas quanto ao próprio público.

Particularmente dizendo, ainda sinto resistência sim, tanto dos organizadores de eventos quanto do próprio público, em lidar com a presença de pessoas que fogem do padrão heteronormativo que é imposto a nós, não só nas festas, mas no nosso dia a dia.

PITTA

PITTA no Luar Music Bar

E você já teve dificuldades em marcar uma gig, por ser uma pessoa LGTBQIA+? Sofreu preconceito, injúrias ou até mesmo agressões, enquanto tocava ou frequentava uma festa?

PITTA – Eu não me recordo de ter sofrido injúrias e agressões. Até porque as pessoas que frequentam e organizam a cena trance, costumam criar pra si uma postura inclusiva e “deboísta”, mas infelizmente as coisas não se dão dessa forma. A gente sabe que assim como no nosso cotidiano, o preconceito muitas vezes está presente de maneira velada. As pessoas têm atitudes preconceituosas, que às vezes nem se dão conta, ou fingem não se dar conta. Olhares, dizeres feitos, mas não diretamente a nós, são exemplos de coisas que eu já presenciei e vivi algumas vezes.

Mas na questão artística, é nítido como o preconceito aparece. Ele aparece quando nós olhamos os line ups das festas e nele predomina, ou é inteiramente composto por homens cis brancos heterossexuais, ou quando intervenções artísticas promovidas pela festa, se dão da mesma forma. Até mesmo na pista, quando pessoas que fogem dos padrões que a sociedade nos impõe, ocupam seus espaços somente pra curtirem seu momento, e se deparam com vários olhares de canto de olho, de reprovação, de pessoas apontando (como já vi acontecer). São atitudes disfarçadas, que as pessoas pensam que ninguém vai perceber, que acabam instaurando o medo e insegurança de pessoas como e, de  ocuparem seus lugares na cena.

Você se sente seguro? Confortável, frequentando um ambiente que não te aceita totalmente?

PITTA – Acho que desconfortável é a palavra. Não me sinto inseguro, porque acho que é meu papel resistir e ocupar esse espaço, para que outras pessoas como eu possam também estar ali. Pra que elas futuramente se sintam confiáveis de poder ocupar esse lugar comigo.

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PITTA

Falando agora da sua carreira como DJ. Como foi que você saiu da pista e passou a ocupar um lugar no lineup das festas? Você lembra da sua primeira gig?

PITTA – É engraçado como a minha carreira como DJ andou de mãos dadas com minha aceitação e sexualidade. Meu interesse sobre a música eletrônica e mixagem foi despertado justamente quando comecei a frequentar as casas noturnas LGTBQIA+, então fui me aprofundar sobre o assunto. Aprendi as técnicas básicas de mixagem num curso na escola para djs da DJ Fabíola Sellan, que hoje é uma querida amiga.

Mais uma vez na noite LGBT, organizadores de festas que são grandes amigos meus como o DJ Edy Monster, me deram oportunidade de me lançar profissionalmente nesse ramo e me ajudaram bastante no meu aprofundamento como DJ. Com bastante treino, dedicação e ajuda de toda essa galera, incluindo o Viktor, editor do B4B, que me deu o empurrãozinho pra começar lá no início, na minha primeira gig, no Luar Music Bar, em São Paulo, consegui seguir a diante com esse trabalho artístico que é tão bonito e importante. Sou muito grato a toda essa história que construímos até aqui.

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PITTA

E o trance? Como ele apareceu na sua vida? Como foi o processo da migração sonora para o que você toca hoje?

PITTA – Quando eu já tocava, comecei a querer ampliar meu repertório. Então comecei a descobrir outras vertentes diferentes das que eu já estava habituado a ouvir. Foi aí que conheci o psytrance. Foi amor a primeira ouvida (risos). Daí então comecei a frequentar festas com esse segmento, para que eu além de poder criar maior consciência sobre o som que eu queria então tocar, poder fazer o famoso network, pra poder começar alcançar novas oportunidades de apresentar meu trabalho e crescer com ele.

Quanto ao processo de migração sonora, a gente sempre aperfeiçoa né? Amplia o repertório, aprende mais um pouco. Quando ingressei na cena trance, eu mesclava entre o progressive e o fullon. Mas depois de um tempo resolvi focar apenas no fullon groove, que era mais a minha praia. Como disse antes, a cena trance se divide em ramificações, então, trabalhando no meio, desenvolvi gosto por outras vertentes e uma delas foi o Darkpsy. Foi aí que dá mesma forma que antes, trabalhei pra ampliar e aperfeiçoar meu repertório para poder atuar ali também.

Atualmente tenho 2 projetos: PITTA (fullon) e Cabron (Darkpsy). Eu resolvi trabalhar com mais de um projeto, porque acho que quando a gente se define muito, a gente acaba se limitando e fazendo as coisas de maneira organizada, acho que conseguimos explorar sempre mais um pouco de nós, artisticamente falando. Tocar uma vertente não pode ser impedimento da gente aprender mais um pouco sobre outra, não é mesmo?

PITTA

PITTA e Edy Monster

E mesmo que todo o cenário atual seja incerto, quais são os planos pra sua carreira musical? Tem usado este momento de isolamento a favor da sua evolução como artista?

PITTA – O cenário atual deixa tudo meio incerto mesmo. Infelizmente estamos todos passando por tudo isso e é muito triste. Esse momento aconteceu sem a gente esperar, de maneira rápida. Me fez pensar muito sobre a minha vida, sobre tudo que eu queria pra mim, principalmente sobre minhas questões profissionais. Eu trabalho artisticamente não só como DJ, sou ator também. Toda a classe artística foi golpeada por essa situação. A partir daqui, a gente vai ter que se reinventar, assim como o mundo inteiro.

Eu utilizei esse momento de internalização para me aperfeiçoar profissionalmente sim. Pra estudar, pra ampliar horizontes, criar novas técnicas, projetos e planos, pra quando o novo normal se instalar, esses investimentos me prepararem pra integrar um novo mercado de trabalho, que a gente ainda desconhece. Mas que tenho esperança que depois desse tempo de reflexão, seja mais justo, igualitário e inclusivo a todos os profissionais do ramo artístico.

PITTA

Pra finalizar, que mensagem você quer transmitir para o mundo, através da sua música? Que atitudes você deseja que o mundo adote, para que as diferenças sejam deixadas de lado? Obrigado!

PITTA – A música tocando numa pista não é só uma música. O dever da arte é comunicar. Acima de toda a técnica do DJ, existe alguém que quer, além de proporcionar momentos de alegria, passar uma mensagem. Então, entenda a mensagem, e principalmente: valorize isso.

Por trás de todo meu trabalho, exite alguém que é diferente, e que estando ali, quer mostrar que o diferente também é bom, e também merece ocupar seu espaço. A diferença não está aí pra ser exterminada, mas pra ser além de admirada, respeitada. Não tem problema ser diferente. O errado é tentar ser igual.

VALORIZE A ARTE, em especial, os artistas LGTQIA+ ❤

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Editores do Beat for Beat. Apaixonados pela música, pela pista e uma boa taça de gin.

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